Peugeot 106 Rally (USPI)

Existiu em duas vers√Ķes diferentes. A primeira fase foi comercializada com o 1,3 TU2J2 de quatro cilindros com 100 hp extra√≠do com inje√ß√£o eletr√īnica. Na sua segunda fase, este motor foi alterado pelo 1,6 TU5J2 de 103 cv, tamb√©m "injectado", com oito v√°lvulas na cabe√ßa do cilindro. Viria a criar, mas em quantidades muito menores, uma vers√£o com 120 cv, catalisada, com cabe√ßa de cilindro de 16 v√°lvulas, com este mesmo 1,6, que chegaria ao GTi e Saxo VTS logo depois.


Hoje em dia eles começam a ser apreciados pelo que são: carros míticos, mas se você procurar bem, você verá que pode encontrar unidades por menos de 3.000 euros em bom estado. Mas o que torna o Rally 106 especial, e o que você deve procurar antes de comprar um?

Desenho

No exterior √© um 106, mas com alguns toques espec√≠ficos, tais como as capas das rodas e os p√°ra-choques espec√≠ficos. N√£o tinha o mesmo kit de corpo que os XSi/GTi da √©poca, que tinham um aspecto mais... ou talvez mais cuidado. As rodas de chapa pintadas de branco maximizaram a ideia de um carro base para prepara√ß√Ķes, sem incorrer em excesso de peso, e reduzindo a massa n√£o suspensa.

Peugeot 106 Rally (USPI)

Não é um Alfa Romeo 33 Stradale, mas esteticamente é simples e agradável.

S√≥ foi vendido em branco, vermelho, preto e azul (azul n√£o estava dispon√≠vel na primeira fase, e vermelho n√£o estava dispon√≠vel na segunda fase). √Č verdade, n√£o √© um trabalho de desenho est√©tico, e √© tremendamente semelhante ao seu filho directo, o Saxo, mas este pequeno carro √© um daqueles que entra bem pelos olhos por simpatia, e por ter uma certa aur√©ola de desportivismo intr√≠nseco na sua est√©tica.


A abertura da porta √© para aceder ao m√°ximo a uma cabina espartana. Os pl√°sticos s√£o duros, e faltam muitas guarni√ß√Ķes em compara√ß√£o com outros 106 mais cuidadosos. Aqui voc√™ pode ver chapas de metal, e isso √© para aliviar o peso. O painel de instrumentos tem pelo menos a vantagem de ter a temperatura do √≥leo, quando hoje em dia os carros est√£o habituados a n√£o ter sequer a temperatura do l√≠quido refrigerante...

Os bancos da frente são bastante próximos um do outro, mas há espaço suficiente para dois adultos. Nas costas não podemos dizer o mesmo, e o porta-malas não é para atirar foguetes, mas como um carro para uso diário, para o espaço, para fazer recados ou ir ao trabalho ou à faculdade é mais do que suficiente.

Técnica

O 106 usa uma evolu√ß√£o do chassi Citro√ęn AX. A id√©ia era criar um modelo de acesso ao Peugeot abaixo do bem-sucedido 205, sem substitu√≠-lo diretamente, oferecendo uma esp√©cie de "anti-Clio". Por fim, nasceriam os 206, depois de ver que os 106 n√£o capturaram bem o tipo de cliente da marca, o que mudaria o foco da pequena Peugeot.

Peugeot 106 Rally (USPI)

O monobloco é muito simples, com escoras McPherson à frente e braços traseiros unidos por barras de torção no eixo traseiro. Neste Rally, a direcção assistida era uma opção desejável apenas para os mais "preguiçosos" da cidade. Os freios ABS chegariam na segunda fase como equipamento padrão, sendo opcionais na primeira fase.


Light (825 quilos para a primeira fase), o Rally 106 não conseguiu competir em linha recta com o GTi, mas isso foi compensado pelo seu comportamento. E para melhorar esse aspecto, o Rally optou por estabilizadores mais espessos em ambos os eixos em comparação com o GTi, com as juntas esféricas articuladas frontais.

E como é que se move?

Se há algo que nos agrada neste carro são os sorrisos que se fazem a cada quilómetro percorrido. Não há muito tempo falámos aqui, nesta mesma secção, dos 205 GTi, e este 106 é muito semelhante em muitos aspectos a esse.

O arranque do motor √© para entrar num mundo de ru√≠dos mec√Ęnicos n√£o totalmente agrad√°vel, pois tanto os tuchos como os sons de admiss√£o e escape v√™m com algum ru√≠do met√°lico aos nossos ouvidos.

O motor Stage 1 pede-nos que o estiquemos at√© ao fim para tirar o m√°ximo partido dele, porque n√£o tem muito bin√°rio para baixo, pelo que se encontrar√° √† procura da rela√ß√£o de transmiss√£o √≥ptima para que o motor se aproxime das sete mil rota√ß√Ķes, algo curioso num motor de oito v√°lvulas. A fase 2 tem um motor mais cheio em toda a gama de rota√ß√Ķes, mas n√£o tanto como um perseguidor de zonas vermelhas. N√£o d√° essa sensa√ß√£o de moagem, mas em troca √© mais f√°cil tirar o m√°ximo partido dela.

Peugeot 106 Rally (USPI)

A direcção tem um aperto telegráfico preciso e a traseira está sempre pronta para o ajudar a fechar os cantos.

Em linha recta √© um carro barulhento, com solavancos e buracos nos quadris e pesco√ßo bem arrumados. Se a superf√≠cie da estrada for irregular, pode tirar o carro da linha recta e desloc√°-lo um pouco, mas essa mobilidade √© proporcionada pelos estabilizadores, que compensam rapidamente essas sensa√ß√Ķes quando entramos numa curva.


O carro está quase instantaneamente reto, assim que você vira o volante. Já me terão lido mil vezes a queixar-me dos estabilizadores dos carros de hoje, por causa da forma como estão montados. O cliente de hoje quer carros que não se afastem da sua linha quando vão em linha recta, para que o condutor desfrute da tranquilidade de ter um carro com "base sólida". Vemos isto em carros com um forte carácter desportivo. Mas isto é conseguido ao custo de não colocar tanto estabilizador como gostaríamos de ter.

Peugeot 106 Rally (USPI)

Este 106 prova que um estabilizador frontal rígido nos permite ter uma boa mordida frontal, agarrando a estrada quase instantaneamente. O volante telegrafa em grande detalhe a pega disponível, e responde com precisão aos nossos pedidos.

E a retaguarda? Bem, também está a juntar-se à festa. As fases 1s respondem com mudanças bruscas na carga do acelerador, e podemos até brincar com as inércias, com o traseiro já "um pouco virado" para a curva. O estabilizador traseiro da Fase 2 é um pouco mais grosso em comparação. Isto torna ainda mais fácil mudar o bocejo do carro em apoio total, se necessário.

Como não há cavalos de potência para perder o nariz ao acelerar, podemos colocar o gás assim que vislumbrarmos a saída da curva, e brincar com a linha. Com a pouca potência e o pouco peso que temos nas mãos, o jogo com o 106 é traçar as curvas da forma mais limpa possível, aproveitar a potência disponível, jogar com um apoio franco, e "sentir a estrada", cada solavanco, cada mudança de apoio, cada linha branca...

Peugeot 106 Rally (USPI)

Depois de uma boa sess√£o de canto, voc√™ vai sair com um sorriso de orelha a orelha. Sim, o seu amigo no Corsa OPC N√ľrburgring pode ter chegado meia hora antes de si, mas n√£o se preocupe: ele n√£o gostou tanto dos cantos como voc√™.

O Rally 106 é um daqueles "carros escolares" que, com pouca potência, lhe permite aprender a aproveitar ao máximo o que tem, com um bom chassis, exemplar no comportamento e maneiras, e com muita informação disponível, para que a sua carroçaria aprenda a compreender o que está a acontecer na negociação dos pneus em busca de aderência.

Problemas?

A Peugeot pode n√£o ter os carros mais fi√°veis a seu cr√©dito recente. Os problemas eletr√īnicos de duas gera√ß√Ķes atr√°s lan√ßaram uma sombra sobre sua reputa√ß√£o de confiabilidade, que agora parece ter sido corrigida. Mas o Rally 106 √© "uma pedra". Com quase nenhum sistema electr√≥nico a bordo e um motor r√≠gido, tamb√©m n√£o tem problemas de ferrugem conhecidos.

Toda a "gordura", tudo o que você tem que ter cuidado, vem de três grandes pontos.

A primeira √© a caixa de velocidades, o ponto fraco de muitos Peugeots. Se voc√™ est√° pensando em comprar um, verifique a jogada na alavanca de c√Ęmbio, verifique se todas as engrenagens encaixam corretamente e n√£o escorregam, n√£o raspam... As coisas do costume.

As mangueiras traseiras dos braços de suspensão tendem a falhar nos seus rolamentos. O seu substituto (o meu amigo Javi vai lembrar-se bem disto, permita-me mencionar...) não é muito complicado, mas se encontrar uma unidade com problemas nestas rodas, é melhor procurar outra livre de qualquer problema.

Peugeot 106 Rally (USPI)

Em poucas palavras: o Rally 106 é um smile-smasher de baixo custo.

Finalmente, como um bom carro "√† procura de curvas", o que geralmente acontece √© que muitos destes 106 Rallys t√™m levado uma vida dif√≠cil, por isso voc√™ tem que observar todas as coisas t√≠picas que voc√™ olharia para um carro de segunda m√£o deste tipo: sem golos, sem juntas de bola tocadas, sem fugas de fluido, sem trav√Ķes deformados ....

Conclus√£o

Peugeot 106 Rally (USPI)

Al√©m da 205 GTI, que j√° √© um mito, se voc√™ me pedir um carro com o qual voc√™ possa se divertir por pouco dinheiro na curva a curva, e com desempenho suficiente para come√ßar e aprender, o Rally 106 seria o meu modelo recomendado. N√£o, n√£o √© recomendado para longas viagens de auto-estrada, e n√£o, n√£o √© t√£o seguro como um carro mais moderno (um 206 por exemplo), mas tem aquele car√°cter raro que encontramos cada vez menos em carros modernos todos os dias. √Č puro, √© viciante, √© divertido e... n√£o √© muito caro. Todos os outros em que consigo pensar a partir da era 106 s√£o muito mais poderosos, mais complicados, mais caros de manter?

De qualquer forma, o 106 √© um desses √ļltimos elos do verdadeiro carro utilit√°rio esportivo econ√īmico.

Artigo originalmente publicado em Abril de 2013, resgatado para Pistonudos.
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